quarta-feira, 23 de março de 2016

Passado

Dormi com a tua camisola a noite passada. Quer dizer, eu mal dormi. Passei a noite a aproveitar todo o tempo para que as lágrimas secassem e os meus pensamentos desaparecessem. 
Pensei em ir ter contigo, correr para os teus braços. Pensei em sorrir-te e de seguida molhar-te com a esperança de que acordasses e percebesses a confusão que estava a tua vida sem a minha presença.
Fiquei destroçada quando esta manhã acordei, com enormes olheiras e com os olhos inchados e vermelhos, e percebi que tudo não passara de mais um pesadelo, daqueles que vives intensamente enquanto estás sóbria e acordada. Percebi que não havia passado disso porque tinhas sido tu o constante pensamento e o motivo pelo qual eu acordara com uma dor de cabeça tremenda, o corpo suado e sem fome.
Claro, o típico "sem fome" que conheci quando te perdi, emagreci imediatamente, em todos os aspetos, emagreci em termos banais e de forma significativa mas mais que isso, emagreci psicologicamente, emagreci na fragilidade, emagreci na confiança, emagreci psicologicamente e tudo me tornou por si só, mais forte mas mais fraca. Sinto-me fraca mas a verdade é que já não choro tanto, já não ligo tanto, já não me apego tanto, já não sinto tanto. Estou mais fria, não sei se posso interpretar isso como sendo mais forte, mas acredita que dá imenso jeito. E graças a ti, percebi que ainda não quero parar por aqui, no que depender da minha pessoa, serei alguém intocável, completamente fria e sem sentimentos. Alguém que consiga agir da mesma forma que agiste comigo, um dia finjo que amo e no outro corto relações. Hei-de lá chegar.
Há muito que não chorava, sentia-me a sufocar. Ainda sinto. Mal respiro, constantemente. Tornou-se algo habitual desde que te foste.
Já estou meio que habituada, é a única coisa que me deixaste, este sentimento horrível que me prende ao passado. Razão pela qual ainda não fui capaz de libertar tudo isto. É tudo o que me resta do que algum dia fomos.

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